Afogamentos por sucção em piscinas: o que a engenharia e as normas técnicas dizem após mais um caso fatal

por eng.ª esp. Giovanna A. Sala.

Recentemente, um salva-vidas de 24 anos morreu ao ser sugado por um ralo enquanto mergulhava para recuperar um objeto perdido em uma das piscinas de um parque aquatico, situado no interior de São Paulo. O caso, amplamente noticiado, evidencia um risco conhecido na engenharia: o aprisionamento por sucção em sistemas de drenagem, um problema que não se limita ao Brasil e tem implicações diretas sobre projeto, execução, operação e manutenção de piscinas e parques aquáticos.

Embora esse acidente tenha chamado atenção pela morte de um profissional treinado, casos de entrapment (aprisionamento por sucção) já foram registrados com vítimas de todas as idades e em diferentes contextos. Em São Paulo, por exemplo, há registro de criança que morreu após ficar presa pelo cabelo no sistema de sucção de uma piscina residencial, demonstrando a vulnerabilidade humana frente a sistemas de circulação hidráulica com sucção intensa. Em nível internacional, a literatura técnica e bases de dados oficiais documentam dezenas de casos de ferimentos graves e mortes causadas por sucção em drenos e sistemas de bombeamento de piscinas e spas, incluindo situações em que adultos permaneceram presos de forma tão intensa que a liberação só foi possível com intervenção externa ou desligamento do sistema.

Levantamentos da Consumer Product Safety Commission (CPSC), nos Estados Unidos, indicam a recorrência de acidentes associados à circulação e sucção em piscinas e spas entre 2013 e 2017, com vítimas que sofreram desde lesões graves até fatalidades. Esses registros reforçam que não se trata de raridade ou coincidência, mas de um risco inerente aos sistemas de sucção quando não são adequadamente projetados, protegidos e operados [inclusive, material que indico a leitura].

O fenômeno do aprisionamento por sucção ocorre quando a força negativa gerada pela bomba de circulação puxa um corpo, membro, cabelo, objeto ou até o corpo inteiro contra a grade ou abertura do ralo, criando um vácuo do qual a pessoa não consegue se desprender por esforço próprio. Esse efeito é potencializado em sistemas mal dimensionados, com bombas cuja vazão supera a capacidade segura dos drenos, grades ausentes ou danificadas e, especialmente, na ausência de mecanismos que permitam a interrupção imediata da sucção em situações de emergência. A energia envolvida nesses sistemas pode ser suficiente para manter um corpo humano preso por vários minutos, mesmo com tentativas de resgate simultâneas.

No Brasil, a norma ABNT NBR 10339 – Projeto e execução de piscinas estabelece critérios técnicos para os sistemas de circulação, sucção e drenagem, com o objetivo de minimizar riscos à segurança dos usuários e garantir a operação adequada do sistema hidráulico. A norma trata do dimensionamento compatível entre bombas, tubulações e pontos de sucção, da necessidade de dispositivos de proteção nos ralos, da distribuição adequada da sucção em mais de um ponto e da importância da operação e manutenção periódica para preservar a segurança do conjunto.

Entretanto, além das grelhas de sucção e do correto dimensionamento hidráulico, um elemento fundamental para a segurança operacional é a existência de botão de emergência para desligamento imediato do sistema de circulação. Esse dispositivo permite interromper rapidamente a sucção em situações críticas, reduzindo drasticamente a força exercida sobre o ralo e possibilitando a liberação da vítima. A ausência desse recurso, sua má localização, falha de funcionamento ou desconhecimento por parte da equipe operacional representam um agravante significativo do risco, especialmente em piscinas coletivas, clubes, condomínios e parques aquáticos, onde a resposta rápida é determinante para evitar desfechos fatais.

Do ponto de vista técnico, a segurança não pode ser tratada como elemento acessório. Sistemas de circulação devem ser projetados considerando não apenas a eficiência hidráulica, mas também os cenários de falha. Proteções físicas, dispositivos de emergência, protocolos operacionais e capacitação das equipes são partes indissociáveis de um sistema seguro. Um projeto tecnicamente correto pode se tornar perigoso ao longo do tempo caso haja substituição de bombas, retirada de proteções, falhas de manutenção ou inexistência de mecanismos eficazes de resposta a emergências.

O acidente mencionado ao inicio, infelizmente, não é um evento isolado. Ele se soma a outros registros que demonstram que sistemas de sucção em piscinas podem representar um risco sistêmico quando não recebem a devida atenção técnica desde a concepção até a operação cotidiana. Normas técnicas como a norma NBR 10339 (NBR, 2018) existem justamente para evitar que transformações hidrodinâmicas em ambientes de lazer resultem em tragédias humanas. Projetar, operar e manter uma piscina segura é uma responsabilidade técnica e ética e, cada fatalidade, deve ser compreendida como um chamado à revisão de práticas, à fiscalização efetiva e ao fortalecimento da cultura de segurança. 

REFERÊNCIAS:

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR 10339: Projeto e execução de piscinas. Rio de Janeiro: ABNT, 2018.

G1. Salva-vidas morre após ser sugado por ralo em parque aquático de Itupeva (SP). G1 Sorocaba e Jundiaí, 14 jan. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/sorocaba-jundiai/noticia/2026/01/14/morte-de-salva-vidas-em-parque-aquatico-dm-itupeva.ghtml. 
G1. Criança morre após ficar presa em ralo de piscina no interior de São Paulo. G1 São Paulo, 2019. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2019/02/07/crianca-morre-afogada-apos-ficar-presa-em-ralo-de-piscina.ghtml. 
UOL NOTÍCIAS. Menina morre após cabelo ficar preso em ralo de piscina durante festa. São Paulo, 2018. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2018/10/15/menina-morre-apos-cabelo-ficar-preso-em-ralo-de-piscina.htm. 
BBC NEWS BRASIL. Como ralos de piscinas podem causar acidentes fatais por sucção. São Paulo, 2020. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/geral-54195156. 

UNITED STATES CONSUMER PRODUCT SAFETY COMMISSION. Pool and Spa Circulation Entrapment Report. Washington, DC, 2018. Disponível em: https://www.cpsc.gov. 
VIRGINIA GRAEME BAKER POOL AND SPA SAFETY ACT. Public Law 110–140. United States of America, 2007.